O ódio é um sentimento corrosivo, cansativo... hoje senti-o novamente. É tão raro senti-lo, mas tão intenso quando o sinto.
Deu-me desejo de ferir as pessoas causadoras desse ódio. Apertá-las até elas sentirem a dor que me causam. Entro no autocarro com esse ódio. E as pessoas à minha volta transformam-se num monte de esterco. Pouco me importa se lá estão ou não. Estou cega, completamente cega.
E, de repente, esse monte de esterco transforma-se em gente sem culpa nenhuma do que estou a sentir. Os meus olhos tão pesados de raiva, e tão abertos, como se visualizassem o local por onde o autocarro passa, mas que não vêm nada a não ser quem e o que me causou ódio, começam a descair um pouco para formarem um olhar triste, cansado... o aumento dos batimentos cardíacos, a força que senti, o desejo de dar um pontapé ou um murro em qualquer coisa que visse à minha frente, acaba por ceder ao cansaço psicológico.
Tento manter uma postura direita, um olhar esgazeado, para que não perca esse ódio, essa raiva pelas reles pessoas que me abalaram a tranquilidade do meu ser. Quero que esse sentimento me percorra como um veneno e me torne mais forte, desperte mais vontade de desejar sentimentos maus a essas tais pessoas. O desejo de lhes mandar para sítios impróprios, de gritar até me sentir completamente extenuada... Provavelmente, os palavrões foram inventados para libertarem a tensão. Talvez a sonância dessas palavras me faça sentir bem ao ouvi-las da minha boca sempre bem-educada, sempre certinha... tão certinha que às vezes enjoa.
Mas este sentimento abandonou-me aos poucos... Não me esqueço do motivo que o causou, que me pode prejudicar para sempre a vida, nem das pessoas a quem posso atribuir as culpas deste problema... Mas a posição desempenada passa a encurvada, e os olhos em vez de tomarem um olhar ameaçador, como são o reflexo da alma, tomam um olhar vago, triste, inútil.
Pois é... a culpa é desta merda de justiça e de quem diz uma coisa e escreve outra. De quem finge com a postura e apunhala-nos com relatóriozinhos para o Sentenciador. Isto de confiarmos em alguém sempre foi perigoso, eu sempre o soube. Mas é esta minha idiotice de acreditar no que as pessoas dizem com uma cara confiante de que tudo está bem quando tudo vai mal. E são estes alguns dos estercos de Portugal.
Eu até gostaria de dizer, com indiferença, como o João da Ega de “Os Maias”:
“- Fez-me o efeito de haver um cabrão mais na cidade.”.
Mas esse tal “cabrão”, ou “cabrões”, não me podem ser indiferentes. Parte da minha vida, senão toda, está dependente da decisão e dos juízos de Suas Excelências. Estamos, decididamente, entregues aos bichos...
2 comentários:
uUu ADUREI O TEXTU ADORUTE
Evoluiste nos teus textos desde da última vez que passei por aqui. Gostei deste :)
No entanto continuo a achar que consegues pegar nas palavras e fazê-las dançar ao som dos teus sentimentos complexos. Devias tentar complicar a tua escrita, ser mais descritiva, mais poética, não tão directa e com vocabulário banal. Mas isto é a opinião duma pessoa que adora o caos e a complexidade :P
aparece pelo meu cantinho
beijinhos grandes
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